A médica Thallita da Cruz Fernandes, de 28 anos, encontrada morta dentro de uma mala no apartamento em que morava, no bairro Redentora, em São José do Rio Preto, era plantonista em um posto de saúde de Bady Bassitt.
De Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, a jovem se mudou para a região em 2016 para cursar a faculdade de medicina. "Hoje concretizo meu sonho de infância de me formar em uma faculdade pública de excelência. Agradeço aos meus pais por terem me dado todo o apoio necessário, desde quando me incentivavam a estudar no colégio até toda a base emocional e financeira nos anos de cursinho e faculdade. Agradeço à Famerp, ao Hospital de Base e aos meus professores por poder aprender a Medicina em um lugar que muitos sonham estar", disse em publicação no Facebook, quando se formou, em 2021.
Redes Sociais
Publicações no Facebook mostram, entre outras convicções, a paixão de Thallita pela profissão e a saudade que sentia da família. Leia mais:
Publicações em homenagem ao pai e a mãe eram comuns em datas comemorativas. A jovem médica postava fotos de encontros familiares e sempre agradecia pelo apoio em sua jornada.

Thallita, ao lado da mãe, no dia em que se mudou para Rio Preto (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
"Nós duas não somos muito fãs dessas datas, mas mesmo assim quero te agradecer por tudo o que você fez e faz por mim! Do seu jeitinho, você me ensinou a ter coragem, a não ter medo de encarar opiniões, preconceitos e regras idiotas da sociedade. Obrigada por ser não só minha mãe, mas também uma amiga que posso contar qualquer coisa", publicou no dia das mães, em 2017.
Thallita também divulgava a produção de chocolates da avó, que vive em Guaratinguetá: "Quando vão inventar um Sedex para doces? Quero trufa em Rio Preto!".
Na páscoa de 2021, no auge da pandemia de COVID-19, a médica recomendou os produtos da avó e enalteceu o trabalho dos pequenos empresários. "Páscoa chegando e lembrem de valorizar os pequenos empresários na compra dos chocolates. Garanto que é muito mais gostoso do que aquele chocolate de mercado e você ainda contribui na renda de uma família", disse em uma postagem.
Ainda durante a pandemia da COVID-19, Thallita divulgava postagens incentivando o uso correto da máscara, o distanciamento social e a higienização das mãos.
A médica também se manifestava contra o machismo. "Não adianta vir dar parabéns dia 08/03 e ser um babaca e disseminar pensamentos machistas o resto do ano! Dizer que fulana não tem moral pra reclamar do assédio porque ela tava de roupa curta, forçar meninas a te beijar em festas e baladas, deixar mulheres nas ruas constrangidas pelas suas cantadas e 'fiu-fiu', fazer 'piadinhas' que só reforçam o machismo e ainda falar que 'o mundo ta muito chato'. Repense suas atitudes! Em vez de dar parabéns no dia oito de março, dê respeito o ano inteiro.", declarou em um publicação de 2017, no Dia Internacional das Mulheres.
Em 2018, a jovem aderiu ao movimento "E agora, Famerp?", que cobrava providências da instituição após um estudante ser preso sob suspeita de filmar o corpo de mulheres sem o consentimento delas.
Homenagens
A morte precoce da médica, na sexta-feira (18), gerou repercussão nacional e causou grande comoção. Familiares, colegas e entidades lamentaram o crime bárbaro que ceifou a vida da jovem. Veja as manifestações:
Em publicação no Facebook, a tia de Thallita falou da dificuldade em compreender a passagem precoce da sobrinha. "Saiba que sempre teremos muito, mas muito orgulho de você que soube desde muito cedo que seria médica. E assim foi. Se formou numa das melhores faculdades federais da América Latina. As saudades e a dor por aqui está muito grande. Minha linda e eterna Dra, que você encontre um caminho de luz, que Deus a receba de braços abertos.", declarou.
Também nas redes sociais, um primo disse que Thallita era uma jovem gentil, com um presente brilhante e um futuro promissor, de coração generoso, cuja influência positiva se estendia a todas as pessoas ao seu redor. "Ainda que o monstro que cometeu essa atrocidade receba a punição que mereça, por maior que ela seja, nada trará Thalitta de volta. Lutemos por uma sociedade mais vigilante, proativa e protetora, que trate denúncias de violência contra a mulher com urgência, independente da vontade da vítima. O aumento das penas para casos de feminicídio, por si só, não garantiu uma proteção suficiente às mulheres. Nem as trará de volta depois de que as perdermos.", completou.
Em São Paulo, moradores do bairro onde o pai da jovem é proprietário de uma banca de revistas, prestaram homenagens. "Há uma campanha para que os mooquenses depositem flores ao redor da banca como demonstração de apoio", diz a publicação do perfil Mooca Bello.

Moradores da Mooca, bairro de São Paulo, prestaram homenagens. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Em Rio Preto, a Famerp emitiu uma nota após a notícia da morte de Thallita: "Com pesar, a Diretoria da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto) lamenta profundamente o falecimento trágico da aluna da turma 49, Thalita Fernandes. Sua partida prematura nos entristece. Nossos sentimentos aos familiares e amigos neste momento de tristeza e consternação".
O Complexo Funfarme, que administra o Hospital de Base, também se manifestou. "Em nome de todos seus diretores, corpo clínico e colaboradores, o Complexo Funfarme manifesta profundo pesar pela morte da médica Thallita da Cruz Fernandes. Formada em 2021 pela Famerp, Thallita atuou para melhor atendimento de centenas de pacientes. A Funfarme manifesta suas condolências à amigos e familiares", diz a nota.
A Prefeitura de Bady Bassitt exaltou o legado profissional da jovem médica. "É com imenso pesar que a Prefeitura Municipal de Bady Bassitt recebe a lamentável notícia do falecimento da médica Thalitta da Cruz Fernandes, plantonista na UBS de nossa cidade. Respeitada por todos e admirada pelo profissionalismo, amizade, integridade e pela maestria ao cuidar da população, Dra. Thalitta deixa um legado incontestável e de relevância fundamental para a Saúde do Município", disse em nota.
Entenda o caso
Thallita foi encontrada morta na sexta-feira (18) após uma amiga ir até seu apartamento em busca de informações sobre seu paradeiro. Desde o dia anterior, a médica não respondia as mensagens da mãe.
Ao chegar no local, a amiga foi informada pelo porteiro que Thallita não havia saído da residência naquele dia. Com essa informação, ela optou por acionar a Polícia Militar.
No apartamento, os policiais encontraram o corpo da vítima nu, com sinais de facadas, dentro de uma mala.
O namorado de Thallita, Davi Izaque Martins da Silva, é apontado pela Polícia Civil como o principal suspeito de ter cometido o crime. Ele foi preso no começo da noite de sábado (19) por policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep).
O caso segue em investigação pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic).
Sepultamento
O corpo de Thallita foi liberado na tarde de sábado (19) e seguiu para São Paulo, onde foi enterrado, no Cemitério São Pedro, no começo da tarde deste domingo (20).